29/05/2008 18:56

Vamos nos encontrar em breve

Em função de novos compromissos profissionais, este blogue vai mudar de endereço. A partir de 2 de junho assumo a direção da sucursal de Brasília da revista Época – missão que só posso definir como um desafio irresistível.
Em quatro meses no IG, fiz um aprendizado tão importante que poderia ter durado quatro anos. Também encontrei um ambiente de trabalho estimulante e saudável.
Aprendi muito com diversos profissionais mas especialmente com vocês, internautas e comentaristas. Vocês me ajudaram a consolidar a noção de que internet é conteúdo e participação. Também me ajudaram a olhar melhor para o mundo e enxergar os diversos lados da vida cotidiana. Se vocês aprenderam alguma coisa com deste blogue, podem ter certeza de que aprendi mais, com cada comentário, cada crítica, cada observação inesperada.
Tenho orgulho de ter feito deste blogue um espaço aberto e democrático, onde a divergência jamais deu motivo a censura.
Em breve este blogue poderá ser encontrado em novo endereço:
www.epoca.com.br
Até lá
enviada por Paulo Moreira Leite



26/05/2008 09:32

Querem culpar os pobres pela fome no mundo

Depois que se descobriu que é preciso prestar atenção em dados singelos da vida cotidiana – como a alta do preço dos alimentos – parte de nossos analistas voltou a exercitar sua melodia favorita: culpar a população pobre aumento no preço da comida.
Assim, a alta dos alimentos seria culpa dos chineses, que agora comem melhor, dos indianos e até mesmo de alguns brasileiros que de uns tempos para cá puderam reforçar a ingestão diária de proteínas.
Com a saída desses bilhões de seres humanos das cavernas da subnutrição, a fome teria se tornado uma ameaça e um fantasma real para as próximas décadas. Seria um dado da natureza, inevitável como temperaturas altas no verão e frio acentuado nos meses de inverno.
A contrapartida deste raciocínio é simples: caso a população pobre retorne a sua dieta de antes, todos os problemas estarão resolvidos.
Será que o problema é este? Há um ano a revista Foreign Affais, uma das mais respeitadas do planeta, publicou um artigo de C. Ford Runge and Benjamin Senauer, dois acadêmicos americanos, alertando para o risco de fome no mundo. “Como os biocombustíveis podem privar os pobres.” Seis meses mais tarde, os dois assinaram um novo texto, em companhia do senador democrata Tom Daschle, com o título “Comida por combustível?”
Estes artigos denunciavam que o bilionário programa americano de biocombustíveis provocara imensas distorções na produção de alimentos – e que a população sem dinheiro para pagar pelos aumentos acabaria pagando a conta.
Há números que confirmam isso. Um levantamento feito pelo professor Fernando Homem de Melo, da Universidade de São Paulo, a partir do preço dos alimentos nas Bolsas de Chicago e Nova Yorque mostra que as altas gigantescas ocorrem depois de 2005, quando o programa americano de biocombustíveis entrou em vigor e diversos grãos foram retirados do mercado de alimentos e rações. É neste momento que o milho salta 300%, a soja sobe mais de 100%, o óleo de soja, quase 300% e o trigo, mais de 300%.
Em sua edição de 17 de maio, a revista Economist vai ao fundo nessa discussão. Lembra que o fantasma de uma fome de apocalipse não passa de uma versão requentada das idéias um economista inglês chamado Thomas Malthus, que há 200 anos anunciava um holocausto nas proteinas disponíveis para a humanidade. Sua tese era que a reprodução de seres humanos era sempre maior do que sua capacidade de produzir alimentos. A revista lembra que o mesmo fantasma voltou à moda nos anos 70, quando ocorreu uma alta no preço do petróleo – como hoje.
O fato é que a dieta dos homens não parou de melhorar nos dois séculos seguintes às previsões de Malthus. Milhões de descedentes dos famélicas do século XVIII e XIX hoje tem direito a beliscar o célebre brioche de que falava a rainha Maria Antonieta antes de ir para a guilhotina. Nesse contexto, a revista recorda que o apocalipse anunciado ignorava aspectos básicos das sociedades humanas – a começar pelo desenvolvimento tecnológico, que permitiu a produção de alimentos multiplicar-se com índices infinitamente superiores a taxa de crescimento da humanidade (que hoje está limitada a 1,2%).
Entre as causas para explicar o retorno das idéias de Malthus, a revista lembra sensatamente que “não há limite à ingenuidade humana” e elenca um conjunto de medidas que podem ser tomadas para aliviar a crise dos alimentos, num pacote que envolve agricultura mas também política de energia e proteção ao meio ambiente e outras medidas a cargo dos governantes. Conclusão: o problema não está na agricultura -- mas na política.
Para o professor Homem de Melo, quem diz que os pobres fizeram elevar o preço da comida “está fazendo o jogo dos grandes produtores de biocombustível, um negócio bilionário, iniciado sem que se avaliassem todas as suas conseqüencias.”
(Homem de Melo acha que o etanol brasileiro, que não reduziu área de plantio para a agricultura, não cumpre um papel nocivo, como o dos países desenvolvidos).
O que você acha?
enviada por Paulo Moreira Leite



25/05/2008 23:56

Indiana Jones e o nosso tempo




O quarto e mais novo episódio da série Indiana Jones é uma boa supresa. O filme (“Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”) se passa no apogeu da Guerra Fria. Logo nas primeiras cenas nosso herói se declara admirador do presidente americano Dwight Eisenhower, o que parece uma promessa de simplismo ideológico. Mas essa convicção é apenas o início de uma amarga sequência de desenganos e desilusões com valores e verdades daquele tempo. Mantendo uma boa distância do cinema de propaganda cunhado pela Guerra Fria, quando assessores militares chegaram a orientar boa parte dos roteiros de Hollywood, Steven Spielberg e George Lucas contam uma história onde não há opção entre o certo e o errado, o bom e o mau – mas entre o ruim e o pior. Se os bandidos do filme são exibidos como cruéis agentes comunistas que obedecem as ordens de uma agente do Kremlin descrita como uma “favorita de Stalin, ” os mocinhos do capitalismo são cidadãos enlouquecidos pela ganância e pela falta de valores sólidos. Um deles perdeu os miolos enquanto sonhava com o ouro do Eldorado na floresta amazônica. Outro é capaz de mudar de lado e de convicções sempre que imagina ter encontrado o atalho mais curto para o luxo e a riqueza. Assumindo o tom desencantado que marcou as produções de ficção científica daquele período, onde a existência de vida extra-terrestre servia apontar fracassos definitivos da sociedade humana, o roteiro do filme pode ser resumido como uma grande aventura pelos escombros da civilização contemporânea. A mensagem é que o melhor já passou e que talvez seja melhor tentar de novo -- ainda que os personagens tenham envelhecido e que os velhos amores já não tenham o mesmo brilho do passado.

enviada por Paulo Moreira Leite



20/05/2008 10:22

A Petrobrás e as nossas vidas

Ao classificar-se como 6a. empresa do planeta e a 3a. maior da América, a Petrobrás consuma uma proeza respeitável.
A história dos brasileiros de várias gerações se mistura à historia da empresa. É uma memória econômica e sentimental.
Nasci em plena campanha do Petróleo É Nosso. Cresci lendo Monteiro Lobato e as lendas sobre o “Ouro Negro.”
Quando era adolescente, meu pai me explicou durante uma viagem de família por Santa Catarina qual o papel do petróleo no desenvolvimento de cada país.
Na segundo grau, ouvi falar do relatório Link, aquele que duvidava de nossas reservas.
Na USP, participei de protestos contra os contratos de risco, que abriam a exploração de poços de petróleo para empresas multinacionais.
Quando começava no jornalismo, entrei num apartamento sem luxos na região da avenida Paulista, no mesmo prédio onde funcionava o lendário restaurante Riviera, para entrevistar Euzébio Rocha, um dos pais da emenda que criou a Petrobrás.
Passei décadas lendo e ouvindo análises sobre a empresa. Dizia-se que era um cabide de empregos, que só funcionava porque tinha monopólio estatal, que era o cúmulo da ineficiência e do abuso dos poderes do Estado. Também se falava que era usada pelos sucessivos governos como instrumento de política econômica – por conta do contribuinte.
Hoje se diz que seu patrimonio atual foi engordado porque o preço do petróleo subiu.
Adoro ouvir lições de economia. Sei que há bobagens e verdades nestas críticas.
Mas sei que a Exxon, a maior empresa da América, a maior do mundo no imenso negócio do petróleo, já derrubou governos e ajudou a patrocinar guerras para garantir seus negócios.
A Microsoft, que perdeu posição para a Petrobrás subir, construiu seu poderío numa trajetória onde idéias brilhantes se combinaram com práticas condenáveis de manipular o mercado e impor padrões tecnológicos de maior interesse a seus cofres do que ao consumidor.
Seriam essas empresas um bom exemplo de eficiência e respeito às leis do mercado e dos direitos do contribuinte?
No 55o ano de sua existência, a Petrobrás merece um brinde. Venceu uma guerra real num mundo real. Depois, quem quiser fala mal, certo?






enviada por Paulo Moreira Leite



20/05/2008 08:00

Franceses têm licença para roubar

O escândalo em torno das propinas da Alstom envolve duas questões bem relacionadas. As autoridades suiças estão convencidas de que colocaram a mão num baú de propinas de U$ 200 milhões de dólares destinados a diversos países. Elas afirmam que uma fatia equivalente a U$ 6,8 milhões teria sido destinada ao governo de São Paulo, no tempo de Mário Covas e Geraldo Alckmin, ambos do PSDB.
Essa pequena fortuna lembra que a corrupção não é um drama exclusivo de países pobres, supostamente governados por uma elite sem preparo e uma população de baixa educação formal.
Na França, escândalos desse tipo já derrubaram ministros de todos os partidos e desmoralizaram empresários de prestígio. Isso acontece porque os franceses desenvolveram uma tecnologia muito peculiar para lidar com a corrupção. Como aquele cidadão que mantém uma vida de severidade e falso moralismo dentro de casa mas toda noite sái para divertir-se na zona do meretrício, dentro da França as propinas são proibidas como em qualquer outro país – e punidas com o rigor merecido. Mas o pagamento de propinas a autoridades estrangeiras sempre foi tolerado.
O argumento é que se tratava de um serviço que no fundo tem utilidade para o país: envolvia a conquista de mercados externos e a captura de contratos milionários para obras públicas -- que era mais fácil de obter com o dinheiro sujo dos intermediários. Para isso, a exigência era que o pagamento fosse feito fora da França, de preferência a partir de empresas de fachada localizadas em paraísos fiscais.
A falácia deste argumento esconde uma verdade elementar sobre a corrupção: a de que ela só ocorre quando alguém está disposto a pagar – e alguém se dispõe a receber. Pagando suas propinas, os franceses não só recolhiam os benefícios de uma fraude – mas também contribuiam para a manutenção de governantes de comportamento que condenavam dentro de seu próprio país.
Concorrentes de outros países, especialmente americanos, onde esse tipo de prática é expressamente proibido em lei e pode levar executivos para a cadeia, sempre se queixaram desta “vantagem comparativa” da industria francesa. Isso explica o especial interesse que o escândalo tem despertado nos EUA.
O que você acha?




enviada por Paulo Moreira Leite






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Perfil

Paulo Moreira Leite - Paulo Moreira Leite � jornalista, rep�rter especial do iG. Foi correspondente em Paris e em Washington, diretor de reda��o da Epoca, redator chefe da VEJA e diretor de reda��o do Di�rio de S�o Paulo. Entre fevereiro de 2007 e janeiro de 2008, foi vice-presidente da Imprensa Oficial do Estado de S. Paulo. Iniciou a carreira no Jornal da Tarde e foi rep�rter especial do Estado de S. Paulo.

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